Ego

I

«Ela desceu as escadas de dois em dois degraus, apressadamente.
- Onde vais?
- Sair.
- Juliana… Juliana!
Ela fez de conta que não tinha ouvido o chamamento da mãe e bateu com a porta ao sair de casa. Foi para o parque infantil, deserto por ser noite, sentou-se num baloiço e acendeu um cigarro.
“Vai apanhar outra bebedeira.”, pensou.
Inspirou profundamente o fumo do cigarro, que fanara da mala da mãe.
- Vais acabar por te matar.
- Pira-te, Paulo.
Paulo tirou-lhe o cigarro da mão e sentou-se no baloiço ao lado.
- És muito nova para fumar, querida.
- E tu, não és? – a rapariga lançou-lhe um ar de sarcasmo, vendo o outro a dar umas passas curtas no cigarro.
- 15 anos fofa. Um mais do que tu. Faz toda a diferença.
Ela tentou tirar-lhe o cigarro, mas ele atirou-o para o chão e pisou-o.
- Ei, não olhes para mim com essa cara. Não é que faça grande diferença, este parque já está cheio de beatas na areia.
- Muito engraçadinho. Ha ha ha.
Continuou a balançar e olhou para o céu limpo, onde a lua brilhava em quarto crescente. Paulo observou-a por um segundo e depois virou-se também para a lua.
- Achas bem andar na rua a estas horas? Devias ficar em casa sossegada, como uma boa menina.
- Para ouvir a minha mãe a apanhar uma bebedeira e a atirar-se contra as paredes? Não me parece. – respondeu num tom de voz descontraído.
Ficaram os dois a olhar para a lua outra vez.
- Estás a dever-me um cigarro.
- Nem penses, eu não compro cigarros. Fazem mal, sabes?
Juliana sorriu.
- Sempre engraçadinho.
O rapaz deitou-se de costas na areia e olhou para ela com o olhar vazio.
- Tudo por ti, querida.
- Não me chames isso.
- O quê? Querida?
- Sim, isso.
- Ok, fofa.
Ela revirou os olhos.
- Então, vais ficar aqui a noite toda a olhar para a lua? – ele franziu o sobrolho.
- Provavelmente.
Ele levantou-se e tirou o casaco.
- Tu é que sabes, querida – disse, enquanto sacudia a areia das roupas e lhe dava o casaco.
- Uau, que cavalheiro – disse ironicamente.
Paulo piscou-lhe o olho e foi-se embora a assobiar, o cabelo loiro a agitar-se levemente com a brisa.
Ela ficou a vê-lo caminhar e , quando ele dobrou a esquina, vestiu o casaco.
- Estás muito brilhante – disse para a lua.»

II

«Juliana limpou as lágrimas que lhe escorriam pela cara. Não se apercebera que estava a chorar e também não sabia a razão.
O sol já começava a raiar.
Ajustou mais o casaco de cabedal e foi para casa. Ignorou todos os objectos partidos que viu quando atravessou a porta e dirigiu-se para uma figura estendida no chão da sala. Deu um leve pontapé na sua mãe.
- Vai para a escola… – respondeu-lhe numa voz decadente.
A filha abaixou-se e pegou numa foto com a moldura partida que estava aos seus pés. A fotografia de seu pai morto devolveu-lhe o olhar com o seu sorriso eterno.
Juliana deixou cair a moldura para o chão com uma expressão de nojo e subiu para o seu quarto, para ir buscar a mochila para a escola. Estava a sair de casa quando voltou para trás – havia um maço de tabaco no chão. Feliz, apanhou-o e colocou-o no bolso do casaco.
Foi a andar lentamente para a escola., cantando uma música baixinho. “The itsy bitsy spider came up the water spout. Down came the rain and washed the spider out…” . Não ficou preocupada com a mãe, não tinha visto nenhum frasco de comprimidos no chão. Já era habitual ela embebedar-se de vez em quando desde que o marido morrera. Tinha-a visto a olhar nostalgicamente para umas fotos dele no dia anterior, o que era sinal sabido de que ia estar de ressaca na manhã seguinte.
Naturalmente, ainda não havia ninguém na escola. Tirou o seu mp3 da mala e ligou-o. “… all teenagers scare the living shit out of me, they could care less as long as someone’ll bleed, so darken your clothes or strike a violent pose…”
O phone foi-lhe arrancado do ouvido suavemente.
“…maybe they’ll leave you alone, but not me…”
- Bom dia querida, mas que aplicados que estamos, não é um pouco cedo para estares na escola?
- Tal como é incrível o facto de tu estares na escola.
Paulo levou a mão ao coração, como se tivesse sido atingido mortalmente.
- Essa doeu, boneca. Doeu. Sabes que eu não ligo muito às nossas prezadas instituições de ensino. Nada pessoal, sabes? Só tenho é uns assuntos inadiáveis para tratar durante o período de aulas .
Ela continuou a cantar baixinho. “As long as someone’ll bleeds, so darken your clothes, or strike a violent pose, maybe they’ll leave you alone, but not me…”
- Ohhh yeah! Boa banda, querida.
Juliana tirou-lhe o phone do ouvido.
- Chega de tretas. O que queres?
Ele lançou-lhe um olhar vazio habitual.
- O meu casaco, my love.
Ela tirou o maço de tabaco, e atirou o casaco para cima da cabeça do rapaz.
- Óptimo, aí o tens. Baza.
O maço de tabaco foi-lhe tirado bruscamente das mãos. Juliana suspirou.
- Dá-me isso.
- Não me parece. Estou a precisar de algo para aliviar o stress.
- Então vende o casaco e vai comprar coca, não é o que andas agora a fazer? – retorquiu mordazmente.
O maço de tabaco voou para o seu colo. Paulo olhou-a nos olhos por alguns segundos.
- Ouvi dizer que o vídeo deles vai estrear brevemente.
- Sim, eu sei – foi a resposta seca.
O rapaz olhou para ela mais uns segundos com os seus olhos azuis escuros.
- Adeus – e deu meia volta para sair do recinto da escola.
Juliana murmurou um “adeus” e voltou a colocar os phones. Pensou se seria verdade aquilo sobre o vídeo de Teenagers. Também pensou em por que razão o Paulo não se teria despedido dela com um querida.»

III

«
- Vai falar com ele!
- Sim, pois claro. – Juliana revirou os olhos, um hábito cada vez mais frequente.
Estava sentada com Rita, Sara e Nicola num canto do recinto da escola, algo resolvido à última da hora quando ouviram o rumor de que haveria teste de Educação Física. Resolveram poupar à professora o esforço de as avaliar. Conseguiam ouvir os resmungos do resto da turma no canto de futebol, onde deviam estar a realizar o teste dos bips.
- Sabes, acho que a Rita tem razão. – apoiou Nicola, encaracolando madeixas do cabelo loiro enquanto estudava curiosa a avidez com que Sara dava passas no cigarro.
- Oh não. Tu também não. Não passes para o lado negro. – respondeu com uma gargalhada seca Juliana. – Ele nem quer falar comigo.
Ficaram em silêncio por uns segundos. Rita ofereceu um cigarro a Nicola, que recusou com um esgar de repulsa.
- Oh, que enjoadinha. Emagrecias num instante.
- Não a chateies com essas merdas.
- Olha, olha. A nossa Ju deu em conservadora.
“Ju” pareceu não ouvir o comentário em tom cínico, continuando a olhar distantemente o céu. As outras raparigas observaram a amiga com olhares cúmplices. Um sorriso tímido surgiu na cara da mais nova:
- Tu estás mesmo preocupada com ele.
- Bem, Nicola, é o que os amigos fazem. Pelo menos acho que somos amigos.
- Claro que são! Portanto pára de ser parva. Há quanto tempo é que não falam?
Rita ouvia com interesse a conversa entre aquelas duas. Sara procurava desesperadamente por um maço de cigarros na mala.
- Quase uma semana. – Juliana desistiu de procurar seja lá o que fosse que procurava no céu e fixou os seus olhos nos outros castanhos claros da colega. – É estranho.
- Então, faz o que tens a fazer.
- Hum. E o que é que tenho a fazer exactamente?
- Acho que sabes, querida. – respondeu Nicola com uma expressão trocista.
Todas se riram naquela imitação perfeita da expressão favorita de Paulo. Juliana levantou-se, sacudindo as calças.
- Ok, já percebi… Parece então que também vou ter de me baldar à aula de Filosofia. Que pena, não é?
Depois das despedidas feitas, saiu apressadamente da escola e tirou o telemóvel do bolso.
“Podes vir ter comigo? Sítio do costume…” O ecrã iluminou-se com as palavras “Mensagem enviada”.

Passou meia-hora sentada no baloiço.
Nem resposta à s.m.s. nem ele aparecia.
“Estúpida. Ele não vem”, concluiu. Sentiu-se patética por sentir um nó na garganta, sinal de que havia uma lágrima prestes a rebentar, acabando por sair a correr do parque – que também estava a ficar cheio de criancinhas chatas.
Ignorou a mãe ao entrar em casa, indo directamente para o quarto. Trancou-o o mais rápido que conseguiu por que conseguia ouvir os passos da mãe preocupada a subir as escadas.
- Juliana? Por favor, abre a porta. Não te custa nada conversar comigo! Por que é que não estás na escola? ABRE-ME A PORTA!… –a mãe cansou-se de bater passados uns minutos e foi embora para a cozinha, tentando esquecer a garrafa de vodca guardada no armário.

Eventualmente, Juliana acabou por adormecer mesmo vestida na cama, a cabeça por baixo da almofada - ainda húmida do choro de que tinha sido vítima.
“Tuc.”
Abriu um olho.
“Tuc.” “Tuc”. “Tuc”. “Tuc”
Seria a mãe a bater outra vez?
“Tuc” “Tuc”.
Não era. Surpreendeu-se ao ver pedrinhas baterem na janela.
Ergueu-se a custo, embora já desperta e espreitou pelo vidro. Sentiu um aperto nas entranhas. Acenou para a pessoa lá em baixo e abriu as portadas.
- Hey, querida. – Paulo sorria-lhe de maneira tonta e efusiva.
- Hey, imbecil.
- Ouch. Para que tanta violência?
- Por que é que não foste lá ter?
- Eu perguntei primeiro…
- Cala-te!
- Tinha umas coisa para fazer, boneca.
Até à distância, eram visíveis os olhos avermelhados de Paulo.
- Tu estás completamente drogado.
- Não exageres… Por favor, não podes vir cá abaixo? Dói-me o pescoço…
Juliana mordeu o lábio, mas destrancou o quarto e desceu silenciosamente até à sala. Mal abriu a porta principal, lá estava ele. Não era exagero: tinha as pupilas dilatadas e tremia como se estivesse prestes a ter um ataque.
- Olá. – disse ele como se não fosse nada.
- O que raio andas a fazer a ti próprio? – saiu-lhe da boca sem mais nem menos, com um misto de tristeza e repulsa.
Para surpresa da rapariga, Paulo caiu no chão de joelhos.
- Eu amo-te.

- Quantas doses exactas é que tu tomaste?
- Não estou a brincar, Juliana.
“Há sempre algo na maneira como a pessoa que amas diz o teu nome, não há?”»

IV

«Ela ficou calada por um minuto, a mirá-lo de alto a baixo: o cabelo loiro escuro desgrenhado, o inevitável casaco de cabedal preto desengonçado, uns jeans esfarrapados, um converse azul e outro vermelho e olhos azuis expectantes. Juliana foi assolada por uma tristeza absoluta e sentiu a vista a ficar húmida.
- Entra – e dito isto, puxou-o pela manga para dentro da sala, fechando a porta. Virou-se para confrontá-lo – ele continuava a observá-la. Estava a tremer, apesar de não estar frio nenhum. Um segundo depois, caiu no chão. Juliana precipitou-se para ele.
- - Paulo! Paulo! – chamava por ele em surdina, não fosse a mãe ouvi-la. Como ele não respondia, começou a dar-lhe chapadas leves na face. Lentamente, ele lá abriu os olhos.
- Ei, que…
“PÁS!”, nem teve tempo de acabar a frase, tendo sido interrompido por uma forte bofetada.
- Estúpido! Fazes ideia do susto que me pregaste?
Ele sorriu confusamente e já ia a abrir a boca para responder quando notou no sinal que Juliana lhe fazia, com um dedo em frente dos lábios. Ajudou-o a levantar (com muito esforço já que, para alguém que perdia peso a olhos vistos, ele pesava bastante) e apoiou-o a subir as escadas em direcção ao seu quarto, que trancou de seguida.
Percebeu que talvez lhe tivesse dado a ideia errada ao sentir a cara de Paulo a aproximar-se perigosamente da sua.
Afastou-o firmemente.
- NÃO. Tu e eu: não.
Ele parecia cada vez mais baralhado e cansado:
- Mas então…
- Mas então nada. Não te ia deixar completamente drogado na rua, percebes? Mas isso não significa que eu te responda a coisas de que nem sequer te vais lembrar amanhã ou que façamos algo sem sentido que não iria ajuda-nos em nada –acabou de discursar pausadamente, esperando que algo que ele tivesse ouvido chegasse a alguma parte do cérebro que não estivesse sob o efeito da cocaína ou fosse lá o que fosse que ele tivesse sniffado ou fumado.
- Nada? – murmurou ele, sentando-se na cama de Juliana que estava decorada com vários peluches amuados do Garfield.
- Nada…. Deita-te, ok? E amanhã de manhã, mal acordares, pira-te daqui. Não te quero ver por uns bons tempos.

Paulo adormeceu rapidamente, o tempo que ela demorara a fumar meia-dúzia de cigarros na varanda. Quando voltou, sentou-se de joelhos à cabeceira da cama e olhou para ele como se fosse a primeira vez que o visse. Era um puto grande, um adulto desleixado. “O Peter Pan moderno”, pensou ela enquanto lhe ajeitava as madeixas do cabelo. Como tinha retirado o casaco, era possível ver que ele envergava uma t-shirt dos Yellowcard…e…o que era aquilo nos braços dele? Esbugalhou os olhos ao pegar no braço pálido dele que exibia várias marcas de agulhas.
- Paulo… tu assim vais-te matar… – segredou-lhe ao ouvido, ao mesmo tempo que uma grossa lágrima lhe escorregava, enfim, pela cara.»


2 Responses to “Ego”  

  1. 1 Posse

    O.O Ego IV :D andava a explorar o teu novo site (que está bacano) e encontrei ^^ continuo a gostar desta história =) muito bem pensada mesmo ;) continua. bjs*

  2. 2 Filipa

    e pra quando é o ego V :P ?

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